O que minha adolescência me ensinou sobre a moda de hoje

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Se tem uma coisa que eu fiz bem na minha adolescência foi ser diferente. Quando tinha 14 pra 15 anos percebi porque eu não me encaixava nos padrões do colégio de classe média, onde as meninas faziam luzes nos cabelos e ajeitavam a franja com spray para ficar igual aquele M amarelo da rede de fast-food. Eu comecei a andar na contra-mão de tudo. Resolvi ter cabelo vermelho com mechas rosas, usar tênis de menino e encher os braços de pulseiras coloridas e fluorescentes. Fui à minha primeira Rave no final dos anos 90, quando ainda tinha 14 anos, antes dos meus pais assistirem uma matéria na TV sobre drogas em Raves e me proibirem de voltar em festas assim – pelo menos até os 18 anos. Comecei então a frequentar shows de rock e hard core e mesmo assim ainda ouvia música eletrônica. Nunca entendi essa coisa das pessoas gostarem de um gênero musical e te recriminarem porque você é “eclético”. Eu já sabia me expressar e isso refletia no meu jeito de ser e vestir.

Há algum tempo, antes dos blogs de moda, as pessoas se expressavam muito mais no seu jeito de vestir, as roupas realmente demonstravam a personalidade de cada um porque as pessoas usavam o que, de alguma maneira, representava aquilo que ela é. Depois desse tsunami de Blogs de Moda onde todo mundo entende tudo, o acesso à informação sobre o que sai das passarelas pra vida real se tornou muito mais rápido e prático. Se por um lado seja positivo mais pessoas terem condições de se informarem do que antes apenas uma minoria conseguia, por outro, cada vez mais vemos pessoas uniformizadas pelas ruas da cidade. A linda da Julia Petit até fez um post sobre a uniformização da moda. A primeira vez que eu vi um sneaker da Isabel Marant achei bem diferentão, cogitei comprar um inspired porque eu amo tênis, mas logo desisti. De repente todas blogueiras de moda até as famosas mais cafonas do nosso Brasil estavam usando. Dali, pra todas as marcas nacionais fazerem suas versões, foram apenas alguns segundos. E de repente todo mundo tava usando o tênis com salto embutido e eu comecei a achar aquilo horrível. O mesmo aconteceu com as calças listradas. Pirei quando vi a primeira vez, eu adoro listras, preto e branco e o Beetlejuice, enrolei pra comprar a minha e quando fui ver, até as lojas de bairro estavam vendendo seus modelinhos por R$20,00. O que aconteceu? Mais uma overdose de listras que sabe-se lá quando eu vou ter coragem de usar qualquer coisa listrada na minha vida! Pra mim o problema não é que todo mundo esteja usando que eu não quero, porque sou diferente, mas de tanto usarem eu cansei de olhar pra essas coisas, que dirá vestir.

Até hoje muita gente relembra minha adolescência e fica rindo do fato de eu ter pintado meu cabelo de rosa, branco, por pintar as unhas coloridas e usar roupas neon. Alguns ainda dizem: “Por que não pendurou uma melancia no pescoço? Apareceria mais não acha?” Mas em que planeta dessa sua cabeça pequena eu queria aparecer? Eu fiz todas essas escolhas porque achava bonito, ué! Hoje em dia vejo na rua pessoas com mais de 40 anos com mechas coloridas nos cabelos e ninguém liga, porque já é algo aceitável. O mesmo acontece com unhas coloridas e a moda neon. Agora, o que as pessoas diriam se me vissem usando uma calça listrada e um tênis com salto antes das lojas de departamento venderem seus exemplares? As pessoas não aceitam o diferente, mas se de repente um exército de pessoas começam a usar aquilo que até ontem poucas pessoas usavam, se torna algo bonito e desejo de consumo. Não existe palavra melhor pra expressar o que eu sinto do que a palavra tédio! Tédio de pessoas que não aceitam o diferente, da moda vomitando tudo em excesso em cima da gente e das pessoas consumindo tudo aquilo que vê sem nem perceber que estão sendo uniformizadas. Talvez essa seja uma maneira de algum espião do governo americano identificar quais são as pessoas mais alienadas que passeiam por ai, hahaha!!

Veja bem, não tem problema algum se você usa qualquer uma dessas peças. Até porque acho o cúmulo as pessoas serem julgadas pela aparência. O fato de eu não entender a uniformização no mundo da moda, não significa que esteja te discriminando porque você tem e usa uma calça listrada, ou uma estampa militar, a qual eu acho que o lugar dela é no exército, de onde nunca deveria ter saído. A questão aqui é outra. As regras foram feitas para serem quebradas, portanto quebre as regras da moda, seja você e reflita isso na maneira de se vestir. A nossa aparência é o maior cartaz que temos para expressar nossa opinião, então faça uso sem moderação. Isso significa que se você quer usar sua calça listrada, ou com estampa de cerâmica e colocar a camiseta do seu filho de 7 anos, faça! Não importa se vão rir ou dizer que você está fora da moda porque ninguém tem o direito de impor o que você pode ou não fazer, muito menos vestir! Você tem todo direito de se vestir como quiser, mesmo que não esteja na moda, não vista o que tá na moda porque é o que te disseram que, se estão usando então ficará bom em você. Se ainda assim te falta coragem em fazer e vestir a própria moda, 90% das meninas que me zoavam na escola por ter peitos, compraram os delas alguns anos mais tarde, as pessoas que achavam música eletrônica muito estranha quando eu ouvia, frequentou festas Rave após os 18 anos e quando eu dizia que ia em balada de rock e alguns achavam que eu ficava chacoalhando a cabeça rodeada de cabeludos de preto, hoje frequentam os lugares que eu mais amava ir. Portanto, se expresse, seja livre, independente do que a moda está vomitando em cima de você. Tem gente que faz moda, outros usam moda e alguns inventam moda. Onde você se encaixa?

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