Para falar sobre o nascimento do Caetano eu preciso relatar a forma como eu nasci mãe. Em 2012 engravidei da Alice, sem planejamento, sem nenhuma estrutura e mergulhei de cabeça na história de “vou parir um bebê”. Li, reli, estudei, pesquisei e fiz tudo o que estava ao meu alcance para entender e querer um parto normal. Conheci o parto humanizado, porém na época as informações a respeito desse tema ainda não eram tão fáceis de encontrar como são hoje. Tudo que eu pesquisava, os profissionais que eu contatava, me passavam valores muito longe do meu alcance. Afinal, eu tinha que montar um quarto, comprar enxoval e parir, tudo sem o menor planejamento financeiro. Resolvi esperar, porque tinha certeza que entraria em trabalho de parto. Com 38 semanas a obstetra que acompanhou meu pré natal me informou que não faria meu parto porque não fazia mais partos há muitos anos, eu teria que fazer com plantonistas da maternidade. Completei 40 semanas e nada. Faltando 4 dias para completar 41 semanas, o plantonista me avaliou, fez toque (que em 2 semanas perdi as contas de quantas vezes me “avaliaram” dessa forma) e disse que não tinha sinal algum de trabalho de parto, que se ela não nascesse até completar 41 semanas ele ia ter que “arrancar ela daí de dentro na terça de manhã”. Passei a segunda feira com cólicas leves, fui ao hospital, toque de novo, não era trabalho de parto, volta pra casa. De noite as dores voltaram, mas eram leves. Voltei ao hospital porque eu não sabia o que fazer, então me internaram para fazer uma cesárea na manhã seguinte. Minha última refeição foi um lanchinho às 21h. Alice nasceu às 13h51 e eu só pude comer às 20h. Depois de um tempo passei a entender o que aconteceu comigo ao ver o trailer do filme “O Renascimento do Parto”. Decidi que nunca mais passaria por isso novamente. E foi aí que começou o parto do Caetano, sem ao menos imaginar quando ou se um dia ele viria ao mundo. Três anos se passaram, fotografei partos domiciliares e conheci pessoas incríveis. Em um evento sobre parto conheci a Letícia Ventura e foi quando ela pegou na minha mão, para agradecer minha presença, que eu senti uma energia linda vindo dela. Nesse momento eu tive certeza de que ela seria a minha parteira, quando eu fosse parir. Nesse mesmo dia acertei a fotografia de um parto domiciliar, nesse parto eu conheci aquela que seria minha doula, Janie Paula, e me encantei profundamente com a leveza com a qual ela se conectava à situação.

Quando engravidei do Caetano levei um tempo para assimilar, mesmo tendo passado anos me informando e presenciando partos humanizados, eu não sabia exatamente como faria para ter o meu. Segunda gestação sem planejamento algum, comecei o pré natal pelo convênio, porque na minha cabeça eu deveria procurar a equipe humanizada somente nas últimas semanas. Não sei de onde eu tirei isso. Foi na segunda consulta de pré natal que o Gabriel surtou, ficou extremamente incomodado com a frieza com a qual fomos atendidos e entrou em contato com a equipe do Mamatoto. Nosso mundo mudou. Assimilei a gravidez com serenidade após nossa primeira consulta e a cada encontro eu me conectava mais com o meu corpo, com meu filho e minha paz. Nossa data prevista para parto era 6 de abril de 2017 e quase ninguém sabia disso. Quase ninguém sabia, também, que Caetano viria ao mundo em um parto humanizado domiciliar. “Nasce no final de abril”, “Estamos estudando uns hospitais ainda”, nós dizíamos. E foi na madrugada de 6 para 7 de abril que Caetano deu os primeiros sinais de que estava preparado para vir ao mundo.

Eu e o Ga vínhamos fazendo maratonas de séries e estávamos nos últimos capítulos de “13 Reasons Why”. Fiz uma panelada de brigadeiro, comemos tudo e adormecemos no sofá. Acordei por volta de 2h30 com umas leves contrações que se confundiam com dor de barriga. Fiquei atenta, chamei o Ga e, sem dizer nada, fomos para o quarto. Às 4h30 acordei novamente e as dores era um pouco mais fortes, fui ao banheiro e voltei para a cama. Dormi sentindo dores leves, que permaneceram comigo por toda manhã. Lembrei de tudo que eu conhecia sobre nascimentos e fui tomar um banho quente para relaxar. Sentei na bola de pilates e terminei de ajeitar umas coisas no computador. Após o almoço as cólicas vieram fortes. Baixei um aplicativo que media as contrações e comecei a ficar mais atenta, havia um certo ritmo. Avisei minha doula e a equipe de obstetrizes. Mandei mensagem para o Ga dizendo que estava perto dele se tornar pai. De noite as dores estavam bem fortes e eu fui para o chuveiro. A água quente na barriga me relaxava enquanto eu rebolada em cima da bola de pilates. Sorri, me emocionei, conversei com Caetano e me despedi da barriga. Porém, era um alarme falso. O Ga chegou explodindo de alegria em casa e as dores foram cessando. Consegui dormir e passar o sábado tranquila. Alice foi para a casa do meu irmão porque tínhamos a certeza de que Caetano estava para nascer.

Por volta de 21h as dores voltaram com força novamente, avisamos a equipe e o Ga passou a monitorar minhas contrações pelo aplicativo. Foram tomando ritmo e de madrugada a intensidade aumentou. Chamamos todo mundo para casa, a Bia, nossa fotógrafa e amiga, a Janie e a Leticia. Elas chegaram por volta de 5h, conversamos, Bia tirou fotos, Janie fez umas massagens, me ensinou a vocalizar a dor e quando a Le me avaliou (primeira vez que era feito toque em mim <3) comentou que estava muito bom. Respirei aliviada, tinha um medo muito grande de não evoluir e precisar de cesárea. A cada contração que eu sentia eu conseguia mais forças para ver meu filho nascer. Então veio um balde de água fria: por volta de 11h as contrações perdiam o ritmo e a Le me falou que havia a possibilidade de ainda não nascer naquele dia. Já era domingo, eu sentia as contrações virem e irem embora desde sexta de madrugada. Me aconselharam a descansar, me alimentar e foram embora. Deitamos na sala, eu e o Ga, e eu dormi, mas não por muito tempo. Por volta de 13h30 acordei com contrações fortes. Pensei “agora vai, bora nascer, filho”. Fomos para o quarto e eu revesava entre cama e poltrona. ora a cama era confortável, ora a poltrona era melhor. Vocaliza, sorri, descansa entre uma contração e outra, abraça o companheiro e começa tudo de novo. Até que por volta de 15h adormeci na poltrona por 30 minutos. “Pode ser alarme falso de novo”, alguém da equipe informou o Ga, mas acordei com contrações cada vez mais fortes e ritmadas. Elas voltaram para casa e, finalmente, eu senti que estava em trabalho de parto. Passamos a procurar posição para encaixar o bebê, que não estava muito bem encaixado. Quando era umas 19h a Le me sugeriu ir para o chuveiro sentar na bola de pilates, mas eu não conseguia sentar, fiquei abraçada na bola enquanto a água quente caía nas costas e dessa vez a água não aliviava as dores. Foi então que eu tomei um balde de água fria pela segunda vez. A Le me informou que os batimentos do Caetano estava oscilando muito e que era seguro irmos para o hospital para uma melhor avaliação. Toda minha equipe de plano B estava disponível e tínhamos tempo de executar o plano maluco de sairmos da Serra da Cantareira e viajarmos, com calma, até Sorocaba para sermos atendidos pelo Dr. Bráulio Zorzella. Não era urgência, tínhamos esse tempo disponível com segurança. Ela chamou o Ga, ele me abraçou e eu chorei. Hospital para mim era sinônimo de cesárea, eu não queria isso novamente. Me recompus e saí do banho. Quando a Le me avaliou, finalmente me informou que eu estava com 6 para 7 centímetros. Estava evoluindo! Esqueci o medo da cesárea e fomos para o carro.

No caminho as contrações se intensificaram. Janie foi comigo no banco de trás do carro segurando minha mão e cada contração que eu vocalizava ela me incentivava. Até que comecei a sentir que uma leve vontade de fazer força. Chegamos no hospital em torno de 21h30 e entramos pela porta errada, o Bráulio apareceu e nos levou para o quarto. Assim mesmo, sem passar pela recepção, sem fazer ficha, nem nada. Não era importante, ainda. Enquanto eu subia para o quarto na cadeira de rodas, vi toda minha equipe de longe e me emocionei. Eu ia conseguir porque tinha certeza de que ao meu lado estavam pessoas que sabiam exatamente o que fazer. Me senti segura novamente. Quando o Bráulio me avaliou me deu a boa notícia: quase 10cm. Eu estava conseguindo e eu não acreditava. Aí as contrações foram me consumindo, fui me afastando daquele ambiente e entrando em profunda conexão comigo mesma. Eu ficava de cócoras a cada contração. Os batimentos oscilavam, mas estava tudo bem. Sentei na banqueta, não sabia fazer força e aí, eu viajei. Fui para a partolândia e não sei quando voltei. Não lembro da sequência dos fatos, mas estava sentindo uma energia (e um calor) muito grande. Foi então que o Bráulio me jogou o terceiro balde de água fria, mas que fez toda diferença. Caetano não estava descendo com as contrações e eu teria que me concentrar em fazer força, se não, precisaríamos ir para a sala de cirurgia tentar outras possibilidades, antes de uma cesárea. Me concentrei, me sugeriram mudar de posição e eu aceitei. Tiraram o colchão de uma das camas e colocaram no chão e foi ali que eu comecei a entender a força que eu precisava fazer. Caetano começou a descer. A cada contração eu me sentia mais forte, fazia a maior força que eu podia fazer e tinha a certeza de que eu ia conseguir. Já dava para ver a cabeça dele quando Janie me falou para quando eu achasse que a dor seria insuportável, que eu fizesse o máximo que pudesse para me livrar dessa dor e foi assim. Algumas contrações depois e eu senti o famoso círculo de fogo, lembrei das palavras dela e fiz a maior força que eu podia fazer para me livrar daquela dor. E nasceu a cabeça. Gabriel se emocionou, Bráulio colocou minha mão no Caetano e eu disse “eu te amo” para o meu companheiro. Algumas contrações depois Caetano nasce direto nas mãos do pai, que o pegou sem jeito no colo e passou para mim. Eu consegui meu tão sonhado VBAC (parto vaginal após cesárea). Nós conseguimos, filho. Foi assim que eu descobri minha potência. Não sei quantas horas estive em trabalho de parto, mas sei que o expulsivo durou por volta de 2 horas. Foi longo, foi intenso e foi lindo! Me orgulhei por, em nenhum momento, pensar em desistir, por não pedir analgesia e por poder, finalmente, dizer que tive um parto natural. E que o faria mais 15 vezes se me fosse possível.

Caetano nasceu em Sorocaba, no dia 10 de abril de 2017, uma segunda feira, às 00h16min. Nesse mesmo instante nasceu uma mãe muito mais forte e um pai estreava nesse universo de amor sem fim.

À minha equipe toda gratidão do universo porque graças a todos eles eu pude me sentir segura em acreditar na minha capacidade de parir.

Equipe:
Letícia Ventura (parteira – Mamatoto Parteiras Urbanas)
Janie Paula (doula)
Bráulio Zorzella (obstetra)
Bia Tabosa (fotógrafa)

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Escrito por Stephanie Salateo
mãe de Alice e Caetano, fotógrafa documental, crio conteúdo criativo e tomo muito café. tenho 31 anos, sou geminiana com ascendente em câncer e lua em leão. tô aqui para ajudar mulheres a se empoderarem, mães a levarem uma maternidade mais leve e para compartilhar meus aprendizados.